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Regulação emocional: o que é e por que ela muda tudo na saúde mental

  • Foto do escritor: Isabela Sanψos
    Isabela Sanψos
  • há 9 horas
  • 5 min de leitura


Sorriso amarelo entre varios sorrisos vermelhos
Sorriso amarelo entre varios sorrisos vermelhos


Você já se sentiu tomado por uma emoção tão intensa que, por alguns instantes, pareceu perder o controle sobre a própria reação? Um comentário que dispara uma raiva desproporcional. Uma notícia que gera uma tristeza que não passa. Uma ansiedade que aperta o peito antes de uma decisão simples.


Esses momentos não são falha de caráter, nem "fraqueza emocional" — são sinais de como o nosso sistema de regulação emocional está funcionando naquele instante.

Entender esse processo é um dos caminhos mais importantes para cuidar da saúde mental. E é sobre isso que este artigo — o primeiro de uma série sobre regulação emocional e Terapia Comportamental Dialética (DBT) — vai tratar: o que é regular uma emoção, por que essa capacidade influencia praticamente tudo o que vivemos e como a ciência e a clínica têm pensado esse tema.


O que é, afinal, regulação emocional?


Regulação emocional não significa "não sentir" ou "controlar" as emoções no sentido de suprimi-las.


Um dos modelos mais estudados e com maior respaldo científico sobre o tema, proposto pelo pesquisador James Gross, da Universidade de Stanford, descreve a regulação emocional como o processo pelo qual a pessoa influencia quais emoções tem, quando as tem, e como vivencia e expressa essas emoções. Esses processos podem ser conscientes ou inconscientes, automáticos ou controlados.


Na prática, isso quer dizer que regular uma emoção pode acontecer em diferentes momentos:


  • Antes de a emoção aparecer: Ao escolher evitar ou buscar determinadas situações, ou ao mudar o foco da atenção.

  • Depois que a emoção surge: Ao lidar com a resposta emocional em si através de estratégias como escolha da situação, modificação do ambiente, redirecionamento da atenção, reavaliação cognitiva e modulação da resposta.


Suprimir vs. Reavaliar: qual o impacto no corpo e na mente?


Um dado interessante das pesquisas de Gross é que nem todas as estratégias têm o mesmo efeito. Comparando duas delas — a reavaliação cognitiva (reinterpretar a situação) e a supressão (segurar a expressão da emoção):


  • Ambas reduzem a expressão externa da emoção.

  • Apenas a reavaliação reduz de fato a experiência emocional interna.

  • A supressão tende a gerar um custo fisiológico e metabólico muito maior para quem a utiliza.


Ou seja: "engolir" a emoção não é o mesmo que regulá-la — e frequentemente tem um custo silencioso.


Por que a regulação emocional muda tudo?


Se pensarmos na regulação emocional como uma habilidade — e não como um traço fixo de personalidade —, entendemos por que ela impacta tantas áreas da vida. Ela está na base de como reagimos a um conflito no trabalho, sustentamos um relacionamento interpessoal, lidamos com a frustração, com o luto e com a ansiedade antecipatória.


O caráter transdiagnóstico da desregulação emocional


Do ponto de vista clínico, a dificuldade em regular emoções — chamada de desregulação emocional — não está associada a um único diagnóstico. Ela é um fator transdiagnóstico, aparecendo como um elo comum em diversos quadros:


  • Transtornos de Ansiedade e Humor

  • Transtorno de Personalidade Borderline (TPB)

  • Transtornos Alimentares

  • Uso e dependência de substâncias

  • TDAH (Transtorno do Deficit de Atenção com Hiperatividade)

  • Quadros de trauma complexo


Nesses cenários, os comportamentos disfuncionais frequentemente funcionam como tentativas — ainda que ineficazes — de regular um estado emocional insuportável. Por isso, aprender a regular emoções beneficia a saúde mental de forma ampla.


Foi justamente esse entendimento que deu origem a uma das abordagens mais eficazes para lidar com esse desafio: a Terapia Comportamental Dialética (DBT).


O que a Terapia Comportamental Dialética (DBT) nos ensina


A DBT foi desenvolvida pela psicóloga norte-americana Marsha Linehan, inicialmente para o tratamento de pessoas com risco crônico de suicídio e diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline. Desde então, sua aplicação se ampliou para diversos quadros marcados por dificuldades de regulação emocional.


A base teórica da DBT parte do modelo biossocial:

A dificuldade de regular emoções nasce do encontro entre uma vulnerabilidade biológica (sentir de forma mais intensa, rápida e duradoura) e um ambiente invalidante durante o desenvolvimento.


Não se trata de procurar uma culpa, mas de reconhecer que corpo, história e ambiente se entrelaçam. A partir disso, a DBT organiza o seu treino de habilidades em 4 pilares fundamentais:


  1. Mindfulness: A base de toda a terapia, focada no treino da atenção plena ao momento presente.

  2. Tolerância ao Mal-Estar: Estratégias para atravessar crises emocionais intensas sem piorar a situação.

  3. Regulação Emocional: Habilidades específicas para compreender, nomear e modular as próprias emoções.

  4. Efetividade Interpessoal: Como comunicar necessidades e sustentar relações mesmo em meio a emoções intensas.


Regular não é reprimir: sinais de alerta de desregulação


Um dos maiores mal-entendidos é achar que "ter boa regulação emocional" é estar sempre calmo. Não é. Regular uma emoção envolve senti-la, reconhecê-la e escolher — com liberdade — como responder a ela.


Alguns sinais do dia a dia indicam que o seu sistema de regulação emocional pode estar sobrecarregado:

  • Reações emocionais desproporcionais à situação disparadora.

  • Muita dificuldade em "voltar ao normal" após uma crise ou chateação.

  • Sensação constante de estar no limite, irritável ou à flor da pele.

  • Uso frequente de comida, isolamento ou compulsões para aliviar uma dor emocional.

  • Sentir que a emoção "toma conta" antes que seja possível pensar sobre ela.


Nota: Nenhum desses sinais, isoladamente, confirma um diagnóstico. Mas quando se tornam frequentes e geram sofrimento, vale a pena buscar auxílio profissional.


Um caminho possível para o cuidado


A boa notícia trazida pelas pesquisas é que regular emoções é uma habilidade que pode ser aprendida e treinada. Isso vale tanto para quem vive uma desregulação emocional severa quanto para qualquer pessoa que deseje ter uma relação mais saudável com o que sente.


Nos próximos textos desta série, vamos explorar, uma a uma, as habilidades específicas trabalhadas na DBT para a regulação emocional — sempre unindo rigor científico a uma linguagem acolhedora e acessível.



Referências Bibliográficas

  • GROSS, J. J. Handbook of Emotion Regulation. 2. ed. New York: Guilford Press, 2014.

  • GROSS, J. J. Antecedent- and response-focused emotion regulation: divergent consequences for experience, expression, and physiology. Journal of Personality and Social Psychology, v. 74, n. 1, p. 224-237, 1998.

  • GROSS, J. J.; JOHN, O. P. Individual differences in two emotion regulation processes: implications for affect, relationships, and well-being. Journal of Personality and Social Psychology, v. 85, n. 2, p. 348-362, 2003.

  • LINEHAN, M. M. Terapia Cognitivo-Comportamental para Transtorno de Personalidade Borderline. Porto Alegre: Artmed, 2018.

  • LINEHAN, M. M. Treinamento de Habilidades em DBT: Manual de Terapia Comportamental Dialética para o Terapeuta. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2021.

  • LINEHAN, M. M. et al. Cognitive-behavioral treatment of chronically parasuicidal borderline patients. Archives of General Psychiatry, v. 48, n. 12, p. 1060-1064, 1991.



📌 O acompanhamento com psicólogos e psiquiatras pode ser essencial para um tratamento eficaz e duradouro. Você não precisa lidar com isso sozinho(a).




💙 Cuide da sua saúde mental e procure apoio sempre que necessário!


🛑  Em momentos de crise intensa, acione a rede de emergência - SAMU 192, CVV 188 ou acesse https://cvv.org.br/.




✍️ Sobre a psi

Isabela Santos é psicóloga desde 2016, psicoterapeuta e consultora em saúde mental.
Atua com psicoterapia personalizada e integrativa baseada na Abordagem Centrada na Pessoa, Terapia Cognitivo-Comportamental e terapias de terceira onda. 
Atende adultos, casais e grupos terapêuticos, além de consultoria em desenvolvimento humano e NR1 para empresas.

Online para o Brasil e o mundo, presencial em Campo Grande MS.

A mente é o sistema que dirige a vida. Cuide dela com sabedoria.

📱 Instagram: @psi.isabelasantos

 
 
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